A matrix afetiva: o mito do objeto único...


... ou a síndrome afetiva de Lilica


Ciumentos de plantão, estão sentados?

Cai agora um mito: o do objeto único de desejo. A ideia ilusoria de que uma única pessoa pode preencher todas as necessidades e anseios de outra em todas as área: sexual, afetiva, econômica, de projetos de vida...

Pense de maneira bem realista: você é o melhor em absolutamente tudo o que faz? Honestamente, eu não. E sinceramente não pretendo ser, pois é inumano tentar ser maravilhoso e perfeito sempre em todos os aspectos. E eu não sei andar de bicicleta...

Provavelmente muitas pessoas concordam com isto. Mas por alguma razão nebulosa, boa parte destas mesmas pessoas sentem-se à vontade para exigir de seu apêndice conjugal nada menos que a perfeição... em tudo!! A satisfação plena de seus anseios afetivos, culturais, sexuais etc. Oh céus, acho que nem o super-homem conseguiria tamanha façanha!

É difícil manter este interesse global e totêmico em um único ser humano por muito tempo, pois as expectativas, em geral, são criada para serem... frustradas. O ideal, penso eu, é aceitar de imediato que seu par conjugal não pode ser a fonte irrestrita de todos os seus anseios, desejos, planos... e amá-lo justamente por isso.

Dito isto, algumas opções surgem: a mais comum é um esforço honesto e realista de aceitar seu par tal como é, em seus limites e potenciais, mas com o cuidado de cultivar sempre amizades e relações que expandam seus horizontes, pois, indiscutivelmente, depois da fase inicial de "grude" vai dar vontade de olhar para outras caras que não sejam a sua cara-metade :)

A outra opção, que vem sendo praticada por alguns grupos na contemporaneidade,
é o relacionamento aberto, em que ambos os cônjuges têm a liberdade de cultivar outros relacionamentos que adicionem ao relacionamento original, criando uma rede de relações e afetos.

As duas opções (dentre tantas) costumam caber mais a determinados tipos e personalidades.

Mas isto é cena para os próximos capítulos...

A Matrix afetiva: reloaded


E aí, qual vai ser?

Como sabem, sou formado em psicologia e durante um tempo atuei como clínico.

De todos os pacientes que atendi, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que 95% tinham como raiz de seu mal-estar psicológico, direta ou indiretamente, algum relacionamento afetivo, seus ou de outrem (familiares, amigos e por aí...).

Sempre achei isto estranho: como pode algo que deveria gerar prazer, contentamento, crescimento, num cômputo geral, gerar mais sofrimento e desentendimento que qualquer outro tipo de relação (familiar, de amizade, de trabalho etc.)?

Unido a isso, o fato de eu mesmo ter passado por uns bons bocados com relacionamentos acabou por acender um questionamento em mim: mas por que, afinal, as coisas são como são?

Não são. Ou não precisariam ser :)

O problema é que vivemos imersos numa descrição do mundo que nos é inculcada, o que inclui ideias do que nós deveríamos ser, sentir e agir. Sim, a todo momento em que você age, atua através de você uma série de condicionamento invisíveis que não necessariamente lhe conduzirão a uma vida mais feliz...

Em matéria de relacionamentos, a coisa é ainda mais grave. Vivemos numa matrix afetiva!!

Não nos ensinaram na escola como poderíamos nos relacionar, que tipos de relacionamentos temos à disposição e o porquê de tal ou qual forma ser a mais "aceita" por todos. E assim nos tornamos autodidatas desastrados numa área tão vasta e tâo importante quanto a dos relacionamentos afetivos.

O problema é que, neste tateio afetivo, como aprendemos aos pares, em geral nos damos mal e ainda levamos mais um ser humano conosco em enredos novelescos sem qualquer sentido.

Quando fazemos tudo isto uma vez ou duas, vá lá, ainda há esperança de que algo mude. Mas aí você chega ao quinto, sexto, sétimo relacionamento... e continua tudo igual: o começo, o meio e o fim, só mudam os personagens!

Se você já parou para pensar nisso, eu lhe alerto: você acabou de perceber um bug na Matrix! E aí, quer vislumbrar novos horizontes ou voltar ao mundo virtual que lhe foi inculcado pelo seu meio histórico-cultural?

Se a resposta é pílula vermelha, sugiro que acompanhe-me nos próximos posts :)

Ensinar e aprender e ensinar e...


Drawing Hands, de M.C. Escher

É sempre assim no Animal Planet: tão logo o filhote da zebra nasça, basta a mamãe dar algumas empurradinhas com o focinho e ele já está lá, andando, ainda cambaleante, mas andando.

É assim com quase todos os mamíferos, aves e o que dizer dos peixes que já irrompem protinhos para sair nadando no mar?

Em compensação, não sei se meu sobrinho de alguns meses resistiria a alguns dias longe da mamãe, nem minha sobrinha de 3 anos e nem mesmo alguns marmanjões de 14 ou mais.

Talvez isso seja um dos fatores cruciais que instaura a necessidade humana de aprender e ensinar o tempo todo, até poderia dizer que a civilização é uma tentativa de manter o aprendizado de várias gerações ativo, de montar uma mega estrutura que permita um aprendizado mais instantâneo e eficiente.

Sendo o aprender um fator essencial para a sobrevivência humana, quando ensinamos algo tem-se a ligeira impressão de que "cumprimos" um dever. Pense bem, repare. Ensinar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, gera um sentimento diferente, um misto de orgulho e prazer.

Então, quer uma dica para cativar alguém? Deixe-a ensinar algo a você, qualque coisa. Olha com cara de que está aprendendo, até porque provavelmente alguma coisa você aprenderá. Faça com que ela sinta que está lhe ensinando alguma coisa e deixe-a regozijar-se com isto: é mais forte que ela, é um impulso da natureza, diria...

Isto gera também uma atitude essencial, a do aprendizado superlativo, pois é como bem disse Ralph Waldo Emerson:
"every man I meet is my superior in some way, and in that I learn from him"