
René Descartes, um Mestre da dúvida que se exerce
Há dois tipos principais de dúvida: a dúvida que se sofre e a dúvida que se exerce. Esta última é axial ao crescimento pessoal, já a primeira é mais uma inimiga aguerrida do conhecimento. Vamos a ela primeiro.
A dúvida que se sofre nos põe num suspense eterno que sequestra toda a nossa energia e atenção. É uma dúvida passiva, pois sentimos como se viesse de fora, imposta a nós, já que a resposta que a eliminaria, supostamente, não depende de nossos esforços, mas de alguém ou alguma coisa.
Em suma, a dúvida que se sofre é refém da expectativa de uma certeza exterior que nunca vem, pelo simples fato de que não há como se ter certeza... de nada! Ou, pelo menos, uma certeza objetiva, concreta, pois toda certeza também é subjetiva. Quem duvida mal suspeita que é a própria fonte da dúvida, que não passa de um jogo de expectativas pouco esclarecidas e assumidas para si mesmo.
Os três maiores exemplos desta dúvida são o ciumento, o indeciso e o inseguro.
O ciumento vive de alimentar sua dúvida: ao mesmo tempo em que teme achar a resposta que procura, não resiste em intensificar suas suspeitas com atos absurdamente minuciosos. De tantas maneiras rápidas e diretas para solucionar seu dilema, ele prefere as mais tortuosas, mas não reconhece que isso parta de suas próprias opções e prefere culpar outrem... Assim, ele sofre a dúvida que cria cotidianamente com muito esmero.
O indeciso não consegue escolher porque sente uma dúvida perene sobre qual seria a melhor opção para si dentre tantas. Seu medo é de sair perdendo, ele não tolera abrir mão de pequenas certezas. Faz questão de preservar sua dúvida, assim, tem sempre um álibi para não se responsabilizar por nada, pois nunca tem certeza mesmo...
Na verdade, o indeciso faz sempre questão de ser escolhido e não escolher. Escolhem o trabalho por ele, é escolhido pelo parceiro afetivo e por aí vai... assim, ele não se dedica nem se responsabiliza por suas escolhas. O indeciso sofre a dúvida, como se fosse escolhido por ela o tempo todo.
O inseguro... bem, nem precisamos falar a respeito, ele é a personalidade secreta que nutre o ciumento e o indeciso. Já deu pra sacar, né?
Agora a outra dúvida, a que se exerce, esta exige uma força e uma autossuperação imensas!
O filósofo francês René Descartes, no séc, XVI, viu-se perante um grande dilema para erigir sua filosofia: sentiu-se na obrigação de duvidar de tudo que conhecia, tudo mesmo. Foi tão fundo nesta indagação existencial que saiu dela para a História. Para o filósofo, tudo era dubitável, menos o fato de que ele... estava duvidando!! Daí a célebre frase: “penso, logo existo (cogito ergo sum)”.
Acerca desta empreitada, outro filósofo, Alexander Koyré, falou algo que matou a charada: “a dúvida, Descartes não a sofria, ele a exercia”. Perceba a diferença: Descartes não esperou uma resposta que contemplasse sua dúvida, ele usou voluntariamente a dúvida para contemplar sua resposta! A maiêutica socrática utiliza a mesma lógica: serve-te da tua dúvida, mas te responsabilizas pelas respostas!
É esta dúvida que devemos cultivar, uma dúvida ativa, que evocamos visando a dissolução de velhas certezas que já não nos fazem felizes.
Fazer algo duvidando é não fazer ou fazer pela metade. Duvidar daquilo que se quer é, veladamente, não querer, mas sem a coragem de assumir... Por isso a dúvida é inimiga do conhecimento.
Agora, cuidado!!! O extremo oposto, a certeza intransigente, é tão danosa quanto a dúvida! Na dúvida, duvide... mas saiba o porquê, saiba como. Exerça a dúvida!
Os Inimigos do conhecimento: a dúvida que se sofre (contra a dúvida que se exerce)
quarta-feira, 17 de novembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 17:21 0 comentários
Os inimigos do conhecimento: a autopiedade
Dedicado ao meu amigo e irmão, instrutor Itamar Campos
"I never saw a wild thing sorry for itself,
a small bird will drop frozen dead from a bough
without ever having felt sorry for itself..."
D. H. Lawrence
Há não muito tempo, falei do medo e da ignorância, dois inimigos mortais do Conhecimento. Agora é hora de falar de umas dar armas mais mortais desta dupla: a autopiedade.
O poema do Lawrence dá a deixa: a autopiedade é uma invenção genuinamente humana. No mundo animal, em que se mata e morre a esmo e a luta pela sobrevivência é diária, não há tempo para sentir pena de si mesmo. Por que conosco, civilizados, seria diferente?
A autopiedade, como a culpa e a vergonha, é um sentimento paralisante, não constrói nada, não resolva coisa alguma, apenas alimenta uma ideia absurda de que o Mundo nos deve explicações pelo seus atos. Ele não deve coisa alguma, já nos deu a vida, o resto é responsabilidade nossa, exclusivamente.
É preciso um ego muito inflado para achar que devemos ter privilégios e que todos devem parar suas vidas para observar o quão grande é nossa dor ou miséria. Para quem enxerga pequeno, tudo é imenso.
Ao mesmo tempo, esse ego inflacionado apenas mascara uma autoestima e uma autoconfiança capengas: sob a autopiedade, não nos vemos capazes ou fortes o suficiente para superar um obstáculo ou problema, contentamo-nos em dizer que ele é difícil, injusto... e nos lamentamos. Eis um pretexto fantástico para a preguiça e a covardia.
Agora, deixo claro que erradicar a autopiedade não nos deve tornar insensíveis ou inclementes com nossas vacilações. Tudo isso é parte da saga humana. Sentimentos são para serem sentidos, mas podem ser sentidos de várias formas :)
A questão é usar tudo isso como alimento, combustível para o aprendizado. O Mundo nem sempre é justo porque a Justiça é uma nobre invenção humana, mas que só funcionam com humanos (e nem sempre).... Ele está além de qualquer Justiça e é preciso uma humildade genuína para acatar isso com serenidade e alegria.
Aprender é o maior poder de todos. Grana, beleza, inteligência são poderes que também devemos cultivar, mas o aprendizado superlativo nos permite crescer sempre, apesar das circustâncias, apesar de estarmos sem grana, descabelados e com os neurônios sonolentos :D. E é impossível aprender fazendo biquinho e se sentindo ofendido com tudo que o Mundo nos mostra a despeito das nossas vontades e expectativas.
Até porque, como diria minha mãe, quem tem pena é galinha...
domingo, 7 de novembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 06:20 1 comentários
Conversa com o Cláudio
Cláudio Solon disse...
Mestre Rômulo,
Você pensa o que você pensa ou está sendo pensado? Seria maneira de dizer, se de fato é você quem manda na sua vida ou se são os pensamentos que mandam em você? Ou seja, se quem comanda é aquela vozinha encravada na incosciência pelas imposições da família, da escola, dos primeiros relacionamentos e que cega e limita?
Mas, Rômulo: Se por exemplo, dentro do nosso incosciente, que também pode ser povoado por pensamentos libertários, edificantes, que também não são nossos, então os pensamentos seriam "melhores"? Seríamos também fruto de pensamento, também de outro. Fazendo juízo, um pensamento melhor, digamos. Pergunto então, estaríamos discutindo o tema caso a maioria de nós tivesse pensamentos menos auto contestados? De onde viria a não contestação? Certamente que do mesmo lugar de onde vem o pensamento contestador. Concorda?
A situação parece um pouco mais complexa pois a nossa programação básica, subreptícia, ela tá lá encravada em nosso inconsciente. Sem ela não respiraríamos, nem comeríamos, etc. Mas será que já viemos com sentimentos programados? Ou seja, quando nascemos já somos alguém à priori? E em vida nós tentamos e não conseguimos nos tornar aquilo que realmente somos, como diria o velho e bom Friedrich? Não sei. Que você acha?
Rômulo Justa disse...
Cláudio, obrigado pelo carinho e admiração, mas dispenso o epíteto Mestre,pois não o sou :)Não estou pronto para tanta responsabilidade, mas quem sabe daqui há 40 anos :)
O livre arbítrio é uma ilusão, o tempo todo agimos por reflexos e condicionamentos, alguns biológicos e outros culturais.
Problema algum nisso :) Contanto que saibamos e sintamos que tudo isso nos conduz à realização, à alegria. Ia ser um saco e perda de tempo precisar pensar e criar tudo novamente a cada ação.
Agora, ao longo de nossa vida somos afogados em demandas que nos afastam de nossa capacidade mais básica: gerar felicidade em si e nos outros.
E é da natureza do veículo mental automatizar tudo que aprende, então mesmo tendo aprendido algo tenebroso que no momento inicial parecia intragável, um tempo depois este tenebroso estará automatizado e funcionando como se fosse algo genuinamente seu, sem origem, como que brotado do nada!
Nessa hora sim, a expansão da consciência ajuda a revelar a origem destes pensamentos e lhe mostra suas raízes, fica ao seu critério arrancá-las ou não. Já aviso que é um processo muuuuito difícil :)
Uau, espero ter respondido algo :)
Abraços
Postado por Rômulo Justa às 06:14 0 comentários
Você pensa o que você pensa?

Quantos pensamentos você têm por dia? Se me perguntarem isso, direi que não faço a mínima ideia. Só para buscar esta resposta, já devo ter tido algumas dúzias...
Agora, quantos destes milhares de pensamentos são realmente úteis e contribuíram para que meu dia fosse melhor, mais realizador, feliz? Sendo sincero, é bem provável que, se eu dependesse da maioria deles para guiar minhas escolhas e ações diárias, estaria perdido...
O fato é que comumente nos confundimos com o que pensamos e mal nos damos conta de que, em geral, nós é que somos pensados pelos nossos pensamentos! Sim, e o que você identifica como “eu” e “seu pensamento” com frequência choca-se com outros pensamentos que também são... seus!
Mas como assim? Quem está com a razão então? Eu ou... eu?
Complicado? O fato é que temos outros veículos de consciência que estão além e aquém dos pensamentos. Todos habitam este mesmo e limitado espécime humano. A intuição, por exemplo, está além do pensamento, é mais rápida e efetiva que ele. É comum estes diferentes veículos se trombarem e gerarem um tilt subjetivo :)
Há um bom tempo reparei em algo: diante de muitas situações, o primeiro pensamento que me ocorria, de imediato, era de uma clareza e uma lógica inabaláveis, mas segundos depois me vinham outros pensamentos que contradiziam ou contestavam o primeiro. Eu sempre escolhia os que vinham depois...
Resultado: quase sempre eu me dava conta que o primeiro pensamento, oriundo da intuição, mostrava-me o que era certo fazer, aquilo que realmente eu precisava, queria e devia fazer. Os seguintes eram tentativas da mente de adaptar o primeiro a outras conveniências minhas (preguiça, vergonha, medo...)
Hoje, ressabiado, ouço sempre aquilo que eu digo a mim mesmo. Ou melhor, aquilo que minha intuição, rápida e certeira no gatilho, diz a outro departamento subjetivo meu, a mente racional. E me surpreendo ao constatar como gasto horas pensando coisas que apenas mascaram aquilo que já sabia desde o início...
Não é curioso? Saber e ao mesmo tempo fingir que não sabe? Cultive uma desconfiança saudável e descontraída para com o que você pensa e sente. Você pensa o que você pensa ou está sendo pensado por um monte de pensamentos que lhe foram inculcados em sua criação que lhe impedem de reconhecer aquilo que quer e precisa fazer sentir, desejar?
Pense a respeito :)
Mas não muito...
quarta-feira, 3 de novembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 18:11 2 comentários
Marcadores: Cultura Shakta, filosofia prática
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