A difícil arte de ser gente fina

Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir (Paul Valéry)

Estou me esforçando diariamente, ininterruptamente, para ser gente fina. Este é meu ideal de vida, não me contento com menos do que isso. Pois não há arte mais difícil, rara e desafiadora que a de ser gente fina.

Ganhar rios de dinheiro não é lá tão difícil, complicado é ter grana e continuar a ser gente fina. Para viajar o mundo todo, basta começar, mas conseguiremos ser gente fina em qualquer localidade? Encontrar uma cara metade também não é lá uma facilidade, mas encontrá-la e esta pessoa ainda ser gente fina, é um achado inigualável!!

Gente fina nós conhecemos de longe e dificilmente nos enganamos. É prazeroso estar perto dela, pois esta pessoa nunca incomoda. Instintivamente, sabe onde se colocar no espaço para não roubar a atenção de ninguém, sem, contudo, se fechar em concha como fazem os tímidos, gerando aquele incômodo indisfarçado no ar.

Quem é gente fina tem a arte rara de saber parar. Sim, saber parar ou se retirar de uma conversa que, inevitavelmente, já deu o que tinha que dar e descambou para o exagero. Não faz cobranças ou se as faz, é de maneira tão sutil que um infeliz pode estar devendo tubos de dinheiro e, ainda assim, devolver a grana com um sorriso no rosto!

Gente fina não se melindra com críticas, pois sabe que elas são absurdamente necessárias para a evolução pessoal. Sabe criticar também, sem barraco. Aliás, qualquer forma de barraco é fator reprovador no teste para ser gente fina.
Mas o auge da finesse é a capacidade de se adaptar a diversos ambientes. Estes espécimes raríssimos conseguem trafegar lepidamente de um chiqueiro a um palácio, sem perder sua nobreza e afabilidade.

E não é isto a prova mais cabal de elegância? Conseguir ser simples (mas nunca tosco) quando a situação pedir simplicidade; exalar sofisticação (mas nunca frescura) quando o ambiente for sofisticado; ser introspectivo (sem beirar o autismo!) quando o clima assim o pedir e transmitir alegria e descontração (mas nunca, mesmo, espalhafato sem noção!) quando todos ao seu redor fizerem o mesmo.

Olhe ao redor, quantas pessoas no mundo você conhece que são assim?

Olhe para o mundo, pessoas assim não fazem falta nesta nossa espécie tão errática?

E agora olhe pra si, em que nível anda sua finesse existencial?