
A antológica foto de Jânio Quadros, igual... mas ao contrário
A cena foi antológica (para mim, pelo menos). Estávamos na cantina da faculdade de Psicologia, eu e alguns amigos, quebrando a cabeça para saber o que faríamos com um grupo operativo que facilitávamos e que, simplesmente, não funcionava.
Depois de relatar todas as minhas dificuldades, pensar em todas as saídas viáveis que conhecia, ainda estava num beco sem saída. Eis que um grande amigo meu, do alto de sua cabeleira messiânica e óculo de John Lennon, me veio com essa:
- Rapaz, quando a coisa não ta dando certo, só tem um jeito de acertar: fazer exatamente o contrário!
- Mas não é isso que a gente está tentando fazer? Pensar a coisa de um jeito diferente?
- Diferente é uma coisa, tô falando de fazer exatamente o contrário!!
- Putz, e aonde vamos para com isso?
- Vão parar no mesmo objetivo que querem atingir. Vai sair igual, só que ao contrário.
Igual, mas ao contrário. Essa frase ressoou na minha cabeça para, só recentemente, me cair no colo como uma verdade profunda!!
Quantos coisas queremos atingir e realizar, mas, de algum modo, parece que não conseguimos? A raiz de tudo está no que você faz e como faz. E às vezes o que urge fazer é conhecer as ações que nos levam a determinado resultado e, sem pensar muito, sem racionalizar... fazer exatamente o contrário!
Repito o que meu amigo disse, não fazer diferente, fazer exatamente o contrário! Isto exige uma força de vontade descomunal, pois 99% de nossas ações são puro hábito. Pela força da inércia, sentimos, pensamos e agimos como comumente fazemos simplesmente porque é mais cômodo. Agora experimente, de propósito, mudar a maneira como você sente diante de determinada pessoa ou situação.
Está impaciente com o trânsito? Experimente adorar encarar este tráfego. Odeia acordar cedo? Experimente não acordar. Odeia seu trabalho? Experimente, sem medo, não trabalhar.
Difícil? Que tal aquela criatura que lhe apoquenta a paciência? Experimente, de propósito, achar ela o máximo (ta... só alguns segundos). Está sem grana? Experimente se sentir rico.
Muitas vezes o que queremos atingir está muito claro, mas, por algum motivo obscuro, nossas ações nos levam a resultados diametralmente opostos. Aí entre a sabedoria do meu querido amigo amalucado. Quando fazemos exatamente o contrário, às vezes agimos justamente da maneira necessária, que permanecia oculta pela força de inércia e do comodismo. Atingimos a meta: ela continua igual, mas chegamos a ela... pelo caminho contrário!
Patáñjali, codificador do Yôga Clássico, em seu Yôga Sútra, sugeriu: “Quando surgirem pensamentos indesejáveis, estes podem ser vencidos convivendo-se com seus opostos (II-33, Tradução do Prof. DeRose)” . Sim, há mais de 2.300 anos, os yôgis já utilizavam esta ferramenta que só recentemente a psicologia cognitiva veio descobrir e que meu amigo sintetizou de maneira precisa:
Tudo o que colhemos é resultado exclusivo de nossas ações. Se os resultados a serem atingidos estão claros, mas ainda assim não são atingidos, talvez seja hora de fazer exatamente, simetricamente, o contrário do que estamos fazendo!
Não funciona sempre, mas nas vezes em que funcionou comigo, fiquei atônito: lá estava o bendito resultado! Como foi possível? Havia agido de maneira exatamente oposta ao que imaginava que seria lógico, desejável ... e consegui!
Mas aí é que está, eu não fiz diferente...
Eu fiz igual, mas ao contrário.
Entenderam? :)
Igual, mas ao contrário
segunda-feira, 20 de setembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 18:28 0 comentários
O que pedir às pessoas?
Mais uma para a série: mas por que não pensei nisso antes?!!
A vida tem ultimamente me colocado diante de uma constatação: nunca devemos pedir ou exigir das pessoas mais do que elas possam dar. E, agindo assim, inevitavelmente, elas darão muito mais do que aquilo que achavam que podiam!
Contraditório? Deixe-me explicar :)
Não adianta pedir a uma pessoa que lhe dê algo, seja sentimento, ação, palavra, qualquer coisa, se ela já não tiver a intenção e a vontade de fazê-lo. Se fizer mesmo assim, será forçado e provavelmente surtirá o efeito contrário!
Melhor é frearmos nossas expectativas e, honestamente, compreendermos como vive esta pessoa, para lhe pedir somente aquilo que ela está disposta a dar com prazer e alegria.
Mas isto não é conformismo? Não é uma autoanulação muito severa de nossas vontades e anseios? Não, é aqui que entra a grande descoberta!
Todo vez que eu ajo desta maneira, percebo como a pessoa acaba dando muito mais do que aquilo que achávamos (eu e a pessoa) que seria possível. E o motivo é simples: quase ninguém se permite vivenciar plenamente tudo aquilo que é capaz. Na verdade, poucos têm consciência do que realmente são capazes.
Isto acontece porque somos constantemente assaltados por exigências socais e culturais que, não raro, são francamente contrárias à nossa natureza e a nossas preferências. Quantas exigências absurdas para que sejamos bons profissionais, cidadãos, colegas de equipe, namorados, maridos e esposas, filhos, pais...
Assim sendo, se fazemos mais uma exigência desse calibre é natural que o psiquismo se feche e reflua, bradando: "não é possível, mais um!!".
Agora, se pedimos apenas aquilo que a pessoa prazerosamente doa, o mesmo psiquismo baixa sua guarda num ato de confiança e gratidão alíviada; e nesse ínterim ele descobre, debaixo de sua armadura, potencialidades que nem desconfiava! Sempre podemos mais do que aquilo que julgamos possível.
Mas é preciso liberdade para que descubramos isso, liberdade para errar, tatear, refazer, algo que nos é concedido na infância e nos é roubado logo depois, pois passamos a viver com cobranças e metas para quase tudo!
Se pedimos a uma pessoa somente aquilo que ela pode dar, restituimo-lhe esta liberdade preciosa, rara, de descobrir o que realmente ela quer e está aptas a doar... e assim se superar! Amizade só dura em liberdade, companheirismo só dura em liberdade, amor só dura em liberdade...
Isto é absolutamente revolucionário e, para ser sincero, também é algo novo para mim. Mas desconfio que a simples aplicação deste princípio pode transformar muitas relações humanas... comigo já está dando certo :)
sábado, 11 de setembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 18:17 0 comentários
Marcadores: comportamento, Cultura Shakta, filosofia prática
Escutar agressivamente

Quase ninguém sabe escutar. Já fizeram um “Ensaio sobre a Cegueira”, se Saramago tivesse vivo, pediria com urgência para que escrevesse um “Ensaio sobre a Surdez”.
Deixa eu explicar mais um pouco: uma coisa é ouvir, como quando alguém chama o seu nome e você se vira para responder. Outra é escutar, como quando alguém chega e diz: “preciso falar com você”.
Nesta hora, ainda tenho um velho cacoete de psicólogo: eu escuto mesmo, paro de fazer o que quer esteja fazendo, concentro nas palavras da pessoa, abstraio-me completamente de tudo ao meu redor. Estou escutando você e mais ninguém.
Muitas pessoas estranham! Acham esquisito se eu desligo o celular ou o coloco no silencioso quando começo a conversar. Não se acostumam sequer com o fato de alguém lhes escutar em silêncio:
- Você não vai falar nada?
- Eu estou te escutando. Quando você acabar eu falo.
Quer algo mais deselegante que interromper a todo hora a fala de alguém, para marcar sua opinião ou tentar se antecipar ao que a pessoa está falando? Sua palavra será tão mais importante do que a da outra pessoa? Para mim cada palavra conta, pois roubar um ser humano de sua palavra é roubar sua humanidade (lembra deste post?),
Vez ou outra estamos conversando com alguém, mas com a cabeça longe.Um papo pode ser um excelente exercício de concentração e até acho que isso é pré-condição para qualquer conversa interessante. É incrível como dar atenção a alguém é um gesto transformador. Privar as pessoas de atenção é como privá-las de alimento. Elas podem definhar e morrer por isso.
Entendo que esta postura é meio atípica. Devo isto ao meu treinamento como psicólogo clínico.
Certa vez, estava às voltas com um caso absolutamente desafiador, dificílimo. Sentia que não estava contribuindo em nada com o paciente, tamanha era a gravidade da situação. Então recorri ao meu monitor na clínica-escola. Falei-lhe da minha angústia, de como queria ajudar, mas sentia que não conseguia.
Ele falou:
- Ele não precisa de sua ajuda, precisa de sua escuta.
- ...
- Mas não qualquer escuta. Escute ele com tudo que você tem. Arranque sua atenção de qualquer coisa que não seja a fala dele. Arranque com determinação, com violência mesmo.
E completou:
-Escute agressivamente.
Faço isso até hoje. Obrigado professor :)
domingo, 5 de setembro de 2010 | Postado por Rômulo Justa às 07:10 1 comentários
Marcadores: comportamento, Cultura Shakta, ética
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