A diferença entre mudança e instabilidade



Mais uma da série: mas por que eu não pensei nisso antes?

Quando eu era moleque, costumava me revoltar com uma coisa: num dia eu brigava e me chateava com alguém, mas no outro todo aquele sentimento tinha se esvaído! Eu queria continuar com raiva das minhas irmãs, de algum amiguinho, do meu primo, mas não conseguia!

Para mim, isso era o cúmulo da instabilidade, passei a me julgar como uma pessoa extremamente instável.

Mais crescidinho, conhecendo mais pessoas, dei-me conta de que, na verdade, eu era uma âncora de estabilidade! :)Mas aí veio a confusão: e as oscilações e flutuações de humor, de emoções que qualquer ser humano têm, não são sinônimos de instabilidade? Que diferenças existem entre instabilidade e mudança?

Mudanças acontecem com algum propósito, por mais desconhecido que seja. Aqui, as flutuações e alterações de humor, sentimento, disposição, acabam convergindo para uma ou várias metas. Uma hora as coisas acabam se sedimentando e, temporariamente, as oscilações diminuem. Mudança que é mudança deixa de mudar um dia para dar lugar a outras... mudanças!

Mas a instabilidade não tem propósito algum, só ela mesma! A instabilidade se alimenta de si mesma, se satisfaz consigo mesma. De fato, uma pessoa instável nunca muda, ela sempre é previsivelmente oscilante.

Desconfio, contudo, que todos temos fases de mudança ou de pura instabilidade, mas há tendências de personalidade que caminham mais para um lado que para outro.

Agora, importante: nenhuma é necessessariamente melhor que a outra, ser mais estável não é sinônimo de ser mais feliz, nem ser totalmente oscilante significa dizer que você seja mais dinâmico ou algo que o valha...

Contudo, é importante saber que, quando estas duas personalidades se relacionam, a possibilidade de sair faíscas é grande, em qualquer contexto: familiar, conjugal, organizacional... são duas receitas diferentes de vida :)Mas um jogo de cintura pode fazer milagres.

E o mundo continua girando :)

Palavras e coisas


"Os pensamentos são como tijolos: constroem, soterram e matam” (DeRose)

O Homem é um bicho que fala, este é seu principal diferencial com relação a todas as demais espécies, mais do que qualquer característica anatomofisiológica.

A palavra e a capacidade de simbolizar são os modos característicos de nossa espécie atuar no mundo, assim como as asas são necessárias às aves, garras e caninos afiados aos predadores, brânquias aos animais marinhos... dá para imaginar um peixe (vivo) sem brânquias? Pois é, difícil conceber um ser humano convencional sem as palavras...

Parece óbvio, mas pouco nos damos conta disso e se um pássaro é educado desde cedo a saber utilizar suas asas, quase nunca somos instruídos no bom uso das palavras. Não falo do ponto de vista gramatical, mas do ponto de vista vital. Como usar as palavras para viver bem?

Primeiro, é preciso reconhecer o poder e o peso das palavras. Tudo, ideais, sentimentos, pensamentos, utopias, não passam de... palavras, o que não quer dizer que sejam somente um palavrório...

Então aqui é preciso desfazer um equívoco que, receio, vem sendo reforçado por algumas ideias filosóficas e psicológicas: palavras não são espelho, elas não refletem coisa alguma,sentimentos, pensamentos... ou pelo menos refletem mal!

Palavras não expressam, palavras constroem!

Pois o que são as sensações, sentimentos, pensamentos, senão palavras e discursos interiorizados, privados? Quando sentimos, quando pensamos, não iniciamos um diálogo conosco mesmos? Então, o que sentimos e pensamos é produto do que falamos, mas não se costuma dizer o contrário?

Isto traz implicações importantes. Quantas oportunidades deixamos passar por estarmos esperando o momento certo de dizer algo (quando é no hora em que dizemos que construimos o momento certo...), ou clareza sentimental sobre algo (quando é na hora em que falamos que construímos os sentimentos), ou um pensamento ideal a ser expressado (quando é na hora que o expressamos que podemos deixá-lo ideal)? Pense bem: oportunidades de emprego, de grana, amizades, relacionamentos afetivos, invenções... muitas morreram na praia pelo descuido quase inconsciente com as palavras...

Já vacilei muito com isso e hoje meu lema é: palavra é mantra! Mas nem me iludo, ainda patino bonito nesta arte sutil do uso das palavras. Mas uma coisa tenho como certa e é aí que entra a frase acima do prof. DeRose: a palavra é concreta, não morre numa frase, pois se prolonga no mundo, assim como os pensamentos, que parecem intangíveis, mas constroem, soterram e matam.

O problema é que pensamos demais e mal dá tempo de perceber esta ação construtiva. Também falamos demais, e a ação construtiva das palavras geralmente nos passa batido... já ação destrutiva, é facinho de perceber...

Ao Rômulo Justa, com carinho

Caro amigo, só posso lhe desejar tudo o que desejaria a mim mesmo.

Que tenha muita sorte, mas que nunca espere por ela. Que tenha saúde, mas que não tema a doença

Que continue deixando o Genaro lhe levar para passear. Que imite cada vez melhor um backyardigan quando brincar com sua sobrinha e que se permita rir com ela de qualquer bobagem boba.

Desejo que você coma mais um pouco, senão sua mãe vai reclamar,
Que dê um tempo na mania de ler e escutar música até tarde... vai dormir rapaz!

Desejo vários amigos de todo tipo, mas, sobretudo, um punhado deles que você possa abraçar, segurar a mão olhar nos olhos.
E falar besteira, muuuuuuita besteira :)

Que você seja um shakta cada vez melhor
e que devolva às shaktís o que lhes é de direito: o Mundo

Que rale, se frustre, tenha dor de cotovelo, dor de dente,
não tenha medo, estou contigo o tempo todo cara!

Desejo que você tenha tudo
mas não precise de nada.

Que seja livre
e liberte

Que tenha tesão em amar e trabalhar
o resto é resto

Que não tenha medo de se revelar frágil
Super-heróis morrem cedo.

Sei que você está com vontade de chorar enquanto lê esse texto
eu também estou enquanto o escrevo,
mas não sinta vergonha, como lhe ensinaram,
Só posso confiar num homem que possa chorar...

Que bom poder lhe falar isso tudo pessoalmente,
procurei você durante tanto tempo cara...
Mas hoje posso dizer com a alma lavada
que depois de tantas brigas, desentendimentos,
quebra-pau mesmo!!!

Sou seu melhor amigo.

Um grande abraço e parabéns!!!

Rômulo Justa

O esquecimento ativo ou esquecer não é crime




Quando somos crianças, não raro, sonhamos em ser adultos. Hoje, parece-me que o maior sonho de muitos adultos é..., voltar a ser criança! “Resgatar a criança interior”, “cultivar uma segunda infância”, todos aconselham estes clichês a toda hora, psicólogos, tarólogos, amigos, charlatões, o Google...

Intrigado, comecei a me perguntar o porquê. Alguns dizem que quando crianças temos mais liberdade. Será? Criança depende de muitos para quase tudo. Já me disseram que quando somos pequenos temos menos responsabilidades. Bom, já conhecei irresponsáveis inveterados que mesmo assim tinham vontade de voltar para a mamadeira..., então também não é isso.

Penso que o que os crescidinhos tanto procuram reconquistar é a capacidade inata da criança de... esquecer!

Já repararam quando uma criança briga com um amiguinho? Tempos depois, sem esforço, eles voltam a fazer as pazes e brincar normalmente. Ela pode até se chatear com alguma coisa no momento, fazer biquinho, mas um tempo depois já está apta a esquecer e voltar a sorrir e brincar com a mesma pessoa que lhe trouxe chateação.

E como somos nós, adultos? Sujeitos impregnados de memória. Tudo e todos exigem que nos lembremos de algo. O Estado quer que lembremos que somos cidadãos, o emprego que lembremos que somos profissionais, a Religião que lembremos que somos culpados e pecadores, os cônjuges que lembremos que devemos satisfações de nossos esquecimentos... e por aí vai. Neste contexto, qualquer esquecimento é um crime.

Nietzsche falava que o que diferenciava o homem de outros animais é a sua capacidade de assumir compromissos. Só que compromissos exigem memória e, segundo o filósofo alemão, um dos métodos mais eficazes de imprimir algo em nossa memória é através da dor e do medo. Adivinha que metodologia a civilização escolheu para nos tornar seres compromissados?

Nada contra compromissos, nem contra a civilização, mas não será possível um meio de vida em que possamos nos engajar e nos comprometer sem o álibi incessante do passado, que permanece como um parâmetro indestrutível que compara e julga nossos desejos e vontades atuais?

Fico consternado quando, conversando com uma pessoa, vejo-a ressuscitar desavenças e perrengues passados como a dizer: “mas olha, você fez isso, não lembra? Claro que lembro, e mesmo eu tendo pedido mil desculpas, a criatura insiste: “mas você fez isso, eu lembro!”. Neste ponto, parece não adiantar nada do que você faça no presente, o passado, mesmo recente, é o seu delegado moral.

Chamo de esquecimento ativo a vontade deliberada de se permitir ser assolado pela eterna novidade do mundo... mesmo diante das mesmas pessoas ou situações! É o esforço para, cautelosamente, limpar o coração e a cabeça de velhos hábitos de interpretação, deixados pela memória, que o fecham para o Presente.

Isto não é nem um pouco fácil, não mesmo. A tendência da memória é sedimentar, o mais rápido possível; e lhe puxar para os mesmos hábitos e respostas de sempre. Hábitos e respostas de sempre o tornarão a habitual pessoas de sempre. Se isto lhe satisfaz, problema algum.

Agora, se não lhe satisfaz, comece a repensar sua relação com a memória. Porém, que fique claro que esquecer não é sinônimo de negligenciar, muito pelo contrário, é uma atitude de aceitação incondicional. Esquecer ativamente alguém não é apagá-la da memória, por birra, por mágoa, é permitir que esta pessoa continue presente, mas sem submetê-la ao julgamento incessante de situações passadas ou recentes, que podem ter lhe desagradado. É se permitir rever esta pessoa com outros olhos, que não focam mais o passado, mas o presente; não o que ela foi, mas o que está sendo.

Esquecer ativamente é se permitir compartilhar com as pessoas a novidade incessante do mundo, sem subjugá-las ao passado, pois elas serão sempre maiores do que aquilo que já foram. Aqui, esquecer não é crime, é um ato de amor... memorável.

A real diferença entre a tragédia e a comédia...




... não é somente de estilo, mas é sobretudo de... tempo!

Sim, há uma tendência inaudita de algumas tragédias, que na hora em que aconteceram pareciam o fim da picada melodramática, tornarem-se, com o passar do tempo, em episódios dignos de dar risadas :)

Às vezes isso acontece de um dia para o outro, quando nos damos conta de quão estúpidos fomos ao nos indispor ou nos chatear com algo tão ínfimo; às vezes demora mais um pouco: semanas ou meses para metabolizar, mas ao final, quando olhamos para trás, dá uma vontade incontrolável de... cair na risada! “Puutz, como eu fui ridículo...” :)

Algum dia, algum humorista (sorry pela memória... ou falta dela) estava comentando sobre o absurdo da situação de um suicida: em frangalhos, falando asneiras, pendurado no parapeito de um prédio... se ele realmente parasse para se olhar neste momento e reparasse no ridículo da situação, racharia o bico de tanto rir! Então, concluiu o humorista, o que leva alguém ao suicídio (tragédia) é a total falta de senso de humor (comédia)!

Não garanto que todas as tragédias um dia poderão se tornar risíveis, mas boa parte delas aposto que sim, pois o limiar entre uma e outra costuma ser muito tênue... Não à toa, em momentos difíceis é comum não sabermos se dá vontade de rir ou de chorar...

Acho que um desafio a todos é conseguir mudar esta chave enquanto estamos no olho do furacão, ou seja, no meio da (suposta) tragédia extrair seu elemento de comédia. Isto é difícil pacas, mas, por isso mesmo, vale a pena ser tentado.

Só não vá agora rir de tudo, pois é como bem dizem: rir de tudo é desespero. E desespero é do departamento da tragédia...

Desligou o botão do óbvio? Quer Qualidade de Vida? Seja desiludido...

Certa vez, uma ex-namorada minha perguntou se podia me fazer um elogio.
- É claro que sim, né?
Respondi, esperando que ela dissesse que eu era lindo, maravilhoso, inteligente ou qualquer um daqueles clichês que fazem nossa felicidade.
Ela mandou:
- Você é o homem mais desiludido que já conheci...

Devo ter feito uma cara de parede. “Ela está tirando onda comigo, só pode ser!” Na hora até fiquei com um pouco de raiva e desconversei. Mas passei dias pensando naquilo... Até que descobri o que ela quis dizer com aquilo

Sempre tive um temperamento cético. Na minha adolescência isto me tornou um pessimista crônico e deselegante. Como eu era um pé no saco :)

Mas passados os idos juvenis, mudei muito e posso até arriscar dizer que sou hoje um otimista discreto, entretanto, meu ceticismo nestes anos só fez crescer! Como isso é possível?

A verdade é que 99% dos nossos julgamentos no dia a dia são baseados em nossas expectativas, a maioria fortemente arraigadas e inconscientes. Então, se nos decepcionamos ou desiludimos com uma pessoa, estejam certos, a fonte da decepção não é este limitado ser humano que esqueceu seu aniversário, atrasou-se para um compromisso, falou asneiras etc. Você também é um pouco (ou muito) assim.

A fonte é você, que esperou tanto de alguém, erigiu mil ilusões e planos e não está disposto a assumir que, de repente, esperou demais, errou o cálculo... constrangedor, não?

Claro que tenho expectativas das pessoas, como tenho a meu respeito e, assim como faço comigo mesmo, se as pessoas falham tento primeiro compreender e ajudar, não julgar de imediato. Sim, se faço isso comigo, porque não com o restante da humanidade? Estamos todos no mesmo barco, homo sapiens!

Então acho que essa é a resolução à charada: compreender que os erros de alguém podem até ter sido acertos na ótica da pessoa; e que para você são erros porque sua cabeça diz que são, porque não satisfazem suas expectativas do que seria certo. E isto é um comportamento completamente inútil, pois a Realidade sempre será maior do esperamos, Ela sempre nos escapa pelos dedos...

Por isso aquela pessoinha tão especial me chamou de desiludido. E hoje acho que ela está certa... e me sinto lisonjeado com tal elogio :)

Sou desiludido porque, como diria o Belchior, "meu delírio é a experiência com coisas reais", imperfeitas como são, mas ainda melhor do que contos de fadas e utopias.

E, definitivamente, o Mundo não cabe no meu umbigo. Cabe no seu?