O que é pior?


"O que é pior, ser triste ou estar convencido disso?" DeRose


Lembram dos mindtricks, aquelas pequenas armadilhas armadas pela mente para nos pregar peças? Pois bem, gostaria de falar sobre uma categoria específica de mindtricks: aquela que consegue tornar o ínfimo, infame...

Sim, como uma lente de aumento, este mindtrick amplia exageradamente as proporções de um acontecimento graça a um fenômeno que bem poderíamos batizar de "eco psicológico" ou algo que o valha.

Você sabe como é: o que lhe aconteceu fica ressoando horas e até dias após o acontecido, magnetizando em torno de si uma torrente de pensamentos, memórias e associações que só pioram a situação. Em pouco tempo, chegamos a esquecer do evento real que desencadeou tudo, mas continuamos nos perdendo no nó de pensamentos e sentimentos que ele agregou em torno de si...

Então, quando tudo lhe parecer inalienavelmente péssimo e errado, que tal lembrar que, provavelmente, 80% dos queixumes que lhe vêm à cabeça são só traquinagens deste mindtrick? Lembre-se também que, de todas as pessoas do universo que sua prodigiosa mente pode convencer, a mais fácil de todas é... você mesmo! Quem lhe conheceria melhor? Quem conseguiria de melhor maneira pegar o seu absolutamente ínfimo e torná-lo absolutamente infame?

A frase acima do Prof. DeRose é uma arma letal contra esse mindtrick e sua lógica é aplicável a vários exemplos.

"O que é pior, ser triste ou estar convencido disso?". Convencer-se de que é triste é reafirmar constantemente para si que não é feliz, que não merece viver, que sua mamãe é má com você ou qualquer outro pretexto que realmente lhe torne um trapo humano. Convence qualquer um.

Mas a tristeza pode ser, como diria meu amigo, o psicólogo Leo Barros, "um dos matizes da minha alegria". Vem, mas vai e continuamos vivendo. Sem ecos.

E mais ainda:

"O que é pior, estar cansado ou estar convencido disso?"
"estar com sono ou estar convencido disso?"
"estar com raiva ou estar convencido disso?"
"estar com medo ou estar convencido disso?"


Quantas frases você pensou em colocar aqui? Muitas são possíveis, pois a lógica é impecável: uma parte do que você sente é real, esta é a parte ínfima :)

Outra parte é puro eco psicológico.

Esta é a parte infame...

Medo e ignorância


O filósofo Imannuel Kant: sapere aude, ousa saber!


Certa vez, Mestre Carlos Cardoso,um dos mais antigos e queridos professores do Método DeRose, saiu-me com essa: "Se eu te desse um arco e flecha e a possibilidade de exterminar o medo ou a ignorância, em qual deles você atiraria primeiro?"

Nem titubeei: a ignorância!!

Até me assustei com a certeza da resposta! Mas de súbito tudo ficou muito claro.

Todos temos medos, temos mais ainda medo de ter medos e é natural que busquemos, a todo custo, extirpá-los. E como lidamos com o medo? Geralmente através de dois mecanismos: a esquiva e a fuga.

A esquiva consiste em tolerar a presença do objeto de seu medo, evitando o máximo possível qualquer tipo de contato com ele. Você sabe que está lá, mas finge que não vê, muda de lado da calçada, diz que está com dor de cabeça, finge qualquer coisa para ludibriá-lo, mas ele continuará lá e no dia seguinte será preciso uma nova esquiva e por aí vamos...

A fuga já é um movimento desesperado para se afastar a todo custo até da lembrança do objeto de medo! É nesse ponto que as respostas patológicas começam a emergir. A simples menção deste objeto fatídico já faz com que você queira sair correndo, mas o espaço vai ficando cada vez menor e você precisa correr mais longe... Acaba como aquela história da Alice: é preciso correr cada vez mais depressa para ficar no mesmo lugar!

O problema é que o medo se alimenta de si mesmo e quanto mais temermos, mais temeremos! Como subverter esse círculo vicioso? Indo à raiz do problema... a "inguinorança"!!!

Tememos aquilo que não conhecemos ou que pode nos impelir a comportarmo-nos de uma maneira em que não nos (re)conheçamos.

Esta segunda opção é a mais insidiosa, pois exige uma tácita ignorância daquilo que você sente, pensa e é a ponto de temer que um evento qualquer vá demolir sua frágil autoimagem e expor uma faceta de si que é.. ignorada! Que meda :)

Então, o verdadeiro inimigo do medo não é a coragem, é o conhecimento!

Está com medo? Como diria o filósofo Imannuel Kant: "sapere aude": ouse conhecer! Ouse servir-se do seu entendimento, sem a tutela de terceiros, quartos, quintos... sair da menoridade subjetiva a que somos submetidos pelas expectativas culturais, familiares, sociais, que educam pelo medo e pela ignorância sistemática! Tornar-se aquilo que se é, como diria Nietzsche, também exige conhecer aquilo que não se é... e descartá-lo!

Shiva Natarája, arquétipo do conhecimento completo, da hiperlucidez, dança sobre um anão maléfico denominado avidyá, que em sânscrito quer dizer ignorância.


Shiva Natarája dançando sobre avidyá


Perceba o tamanho de avidyá perante o Bailarino... não é do tamanho de nossas pequenas certezas?

Está com medo? Sambe sobre avidyá... e seja feliz :)

Sobre a transgressão





Relendo um texto genial do meu amigo Marco Carvalho, instrutor de Curitiba, fiquei com vontade de falar um pouco sobre este assunto fascinante.

Sempre fui atraído pela transgressão, pela subversão. Contudo, hoje em dia tenho uma concepção totalmente diferente da que tinha quando mais jovem.

Transgredir não é necessariamente se opor, contradizer, desafiar violentamente. Isto só atraia forças repressoras que serão tão violentas quanto mais forte for a força transgressora.

Ora que curioso: aqueles que querem subverter, em geral, fazem questão de deixar bem claro seu desejo de contradizer. Expõem isso em camisas, portam bandeiras, gritam palavras de ordem... E se revoltam (justificadamente, ok) quando sofrem algum tipo de opressão. O que eles esperavam em troca? Sorrisos e fogos de artifício?

Na verdade, este tipo de subversão, de tão visível, chega até a ser previsível, daí ser tão fácil reprimí-la. Quem, realmente, se importa com passeatas, intervenções, buzinaços, gritarias? Se você, como eu, cursou faculdade pública, sabe bem do que falo...

Agora, há um outro tipo de transgressão, muito mais profunda e sutil, que vale a pena abordar. Ela é muito utilizada na ancestral filosofia comportamental que embasa o Método DeRose.

Ela ocorre quando decidimos fazer algo que nunca antes tivemos coragem de fazer: sair de um emprego, mudar o (ou de) relacionamento afetivo, romper com o padrão de expectativas sobre você ou outra pessoa, quebrar regras insossas que tolhem nossa liberdade e sensorialidade... Mas sem que ninguém perceba!

Esse é o grande trunfo da transgressão que pratico, que provoca uma catarse de efeitos ultrabenéficos ao psiquismo. Há o prazer e a delícia de transgredir, mas sem os olhares recriminadores ou invejosos que buscam lhe reprovar. Basta discrição.

Como disse o próprio Marco, se recusar a ser só mais uma pessoa fútil e se negar a ter roupas de marca, carro do ano, novas bugigangas tecnológicas da moda, ser só mais um rostinho ou corpinho bonito, nem mesmo ligar para dinheiro, bem, isto é até uma atitude louvável. Tenha certeza que muitos saberão que você não curte tais coisas e te julgarão de acordo com esta percepção.

Agora, ter roupas de marca, carro do ano, rostinho e corpinho bonitos, bugigangas tecnológicas da moda, ligar para dinheiro e, mesmo assim, não ser fútil e, discretamente, utilizar todos estes meios para viver a vida do seu jeito e não jogar o jogo do senso comum, cara, isto é transgressão pura! E ninguém percebe!

Ser educado, em nosso contexto, é uma transgressão, mas ser incisivo quando esperam floreios, também; não fumar, não beber, não comer carnes, uau, isso é transgressão total!

Do mesmo modo que cultivamos a disciplina, devemos nos esmerar em cultivar a arte de romper todas elas, temporariamente, nos momentos certos. Com discrição.

A brevidade da vida



Amigo leitor, eu vou morrer. Aliás, não sei se está lembrado, mas você também :)

Que óbvio, não? Duvido. Pouquíssimas pessoas têm noção real da brevidade da vida e sofrem de uma mazela gravíssima: a síndrome da eternitite aguda.

Seu principal sintoma é aquela vaga sensação de que nós temos tempo, de que sempre existe o amanhã, então, “deixa pra depois”... Há pessoas que dizem “deixa pra depois” por anos a fio: estas são casos crônicos de eternitite aguda!

Não há depois, nem amanhã, o que existe é a certeza de que tudo que somos um dia acabará. Nem discuto se você acredita ou não numa continuidade da vida post-mortem, crenças devem ser respeitadas, mas ainda assim são crenças. Ninguém tem certeza do que virá (meu amigo Alexandre Montagna escreveu algo legal sobre isso aqui).

Este pensamento não deveria gerar desespero, deseperança, mas um saudável senso de urgência, de realização. Afinal, diante da morte, muitos problemas que julgamos imponentes não passam de picuinhas megalomaníacas. O que realmente importa sentir, fazer, legar, antes do toque da Bendita?

A Morte é uma conselheira. É preciso, vez ou outra, consultá-la para tomar novamente o prumo na vida.

Marcos Aurélio foi um grande imperador e filósofo romano do séc. I d.C. Escreveu coisas interessantes sobre a brevidade da vida. Mas mais interessante ainda foi a filosofia prática que desenvolveu...


Busto do imperador-filósofo Marcos Aurélio



No apogeu das conquistas do Império Romano, Marcos Aurélio pagava um escravo (sim, ele pagava um escravo!) para andar ao seu lado e executar uma simples incumbência. Só uma.

No auge das vitórias e conquistas, nas festas em honra ao Imperador, nos salões suntuosos dos palácios, o escravo chegava ao pé do ouvido do filósofo e sussurava: memento mori.

Memento mori, “lembra-te que vais morrer”. Era o antídoto que o incensado Imperador precisava...

Então, de manhã, quando levanto e enquanto escovo os dentes, tomo banho e coisas afins, faço um breve planejamento do meu dia, algumas mentalizações, reprogramações, para encerrar sempre assim: ...e memento mori!

Agora sim, estou pronto para este dia que bem pode ser meu último sobre a face da Terra! Quem sabe? Ninguém. Então, por precaução, memento mori, prefiro lembrar que eu vou morrer e que pode ser hoje! Se não, que ótimo, mas no dia seguinte irei lembra de novo, e no outro dia, no dia depois desse, no seguinte... Lembrar que, todo dia, bem pode ser o meu último.

Um dia vou acertar.

A gentileza



Se você mandar alguém fazer algo, com grosserias e ameaças, esta pessoa até poderá fazer o que lhe é exigido, mas só se não tiver outra opção.

É o caso de um empregado pouco criativo que atura um patrão estúpido lhe enchendo de ordens (por medo de perder o emprego), de uma dona de casa de parcos horizontes culturais que tolera um marido também estúpido vociferando mandos (por medo de perder o marido) e por aí vai.

Se eles enxergassem outras opções, será que continuariam fazendo o que lhes é exigido?

Em contrapartida, se você pedir a mesma coisa com gentileza, a pessoa também executará seu pedido... Mesmo se tiver outra opção! Pois não fará aquilo por obrigação, mas por senso de cooperação, carinho, admiração...

“Você poderia, por favor, fazer isso por mim? Preciso que você me ajude em algo, acho que não consigo fazer sem você”. Frases simples assim abrem portas e põem abaixo as mais aguerridas defesas.

Nesse sentido, a gentileza autêntica é uma arma mortal! Quantos conflitos poderiam ser evitados com um pedido de desculpas singelo? Ofertar, presentear, auxiliar, são ações que criam uma empatia inabalável e tornam a vida mais amena.

E por que é tão difícil ser gentil hoje em dia? Não é! Trata-se de uma questão cultural e também de hábitos. Comece com uma gentileza por dia, garanto que, por contágio, você começará a ser agraciado também com atos gentis e aí não parará mais. Já diria aquele profeta: gentileza gera gentileza.

Mais gentileza ainda é manter-se gentil mesmo quando não o são conosco. Sim, eu falei que ser gentil é fácil, mas para algumas pessoas, por reflexo, educação ou complexo de brucutu mesmo, é um pouco mais complicado. Por que algumas coisas têm que ser assim?

Não sei, mas anote aí, por favor: o simples é sempre o mais complexo. E difícil. Por isso precisamos nos dedicar a ele, cultivá-lo. Sempre e com muita gentileza.